Era um dia frio quando ela
veio, a filha disse que se chamava Felicidade, assustada com a imagem que
parecia uma cena surreal, a voz quase ausente, roupas rotas, sem firmeza alguma
no caminhar, repete o nome de maneira incompreensível, a filha repete o nome e
entrega o documento, enquanto estática esquadrinho esta mulher de aspecto vencido,
o seu rosto enrugado, mãos tremulas
cheias de anéis de prata escurecidos, olhos apagados, cabelos presos sem
cuidado algum, decrépita dos sentidos, perco o fôlego pensando no que tenho
feito da minha felicidade. Poderia ser mais uma manhã sem sol qualquer, faço então
todo o meu atendimento, sorrio meio sem graça, agradeço então a observo sair
carregada com dificuldade pelos braços de sua filha desaparecendo da mesma
forma que entrou na minha vida.
Depois desta cena, surgem tantas indagações
causadas pela minha curiosidade quase infantil, minha mente fervilha em milhões
de pensamentos querendo racionalizar a minha impressão sobre este encontro,
desvendar por que a felicidade se personaliza assim desprotegida e obscurecida
numa senhora frágil destituída de sua capacidade de se gerir, algo que
misticamente parecia um aviso cósmico, ou mais uma das brincadeiras de Deus me
fizeram lembrar a minha própria felicidade. Até então, nunca havia imaginado a
possibilidade de que meus anseios, desejos, pensamentos envelheceriam comigo, junto
ao meu modo de ser sempre transformado pelas necessidades.
Nossos conceitos são tão
etéreos e impalpáveis, enxergar a felicidade personificada em uma senhora adoentada,
carente de tantos cuidados, me fizeram debruçar sobre meus conceitos e métodos
de alcance da minha própria felicidade, a construção da minha rotina tantas
vezes muito prazerosa de cuidar de minha filha e de tantos outros desconhecidos
que procuram nada mais que um alivio para suas dores ou respostas a suas
duvidas, de expor meu mundo através da poesia, de meus relacionamentos pessoais
que não sobrevivem a minha incapacidade de ser demasiadamente autentica e
rigorosamente fiel as minhas necessidades de ser livre, mesmo querendo
aconchego e colo.
Percebi o quanto a falta da
percepção do tempo tem atropelado invariavelmente nossas aspirações,
empoeirando e paralisando nossas ações por não nos programarmos para viver
melhor e com mais intensidade, nem faz diferença o quão belo nossos sonhos
sejam, tão pouco importa em qual parte da linha da vida nós estamos, melhor
cuidarmos de sonhar e concretizar nossa felicidade agora. Distribuir abraços
que desejamos nas pessoas que amamos expressarmos nossos sentimentos, beijar
nossos filhos, cantarmos sem motivo ou ritmo, sermos bons verdadeiramente,
justos e leais com nossos corações, entregarmos a nossa vida a toda essa delicia
que é viver por inteiro, para que pratiquemos a disciplina de valorizar e dar importância
as pessoas e coisas que nos retribuem na mesma moeda de troca, o amor.
Não viver o ócio eterno
permitir a mente deve estar ativa e produtiva para uma vida plena, temos Contas
a pagar e trabalho é importante para nosso conforto no mundo material, mas não
deveriam ser a nossa única preocupação, então que nossa ausência seja apenas um
intervalo para degustar daquela saudade boa que faz do encontro um momento de partilha, generosidade e
carinho, que tenhamos um sorriso largo em nosso rosto e que nossos dias exalem
a paz.
Antes que o tempo de partir chegue, esgueirando
entre as manhãs entre um ou outro fio branco, marcas e sinais que foram postas
enquanto estávamos dormindo. Então, depois de ver D.Felicidade caminhar
pela sala se despedindo da própria vida , quero apenas refazer a minha
vida de uma forma diferente, que minha felicidade more satisfeita em meu peito e esteja como uma criança , plena de energia e
fulgor, brotando dos meus olhos e
transbordando em minhas ações, perfumando meus dias e dos meus amados até o ultimo segundo, então quando eu partir
desse capitulo, estaremos duas crianças cirandando na doçura de outros caminhos mais alem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário